Crítica | Zim, Boum, Boum (1878)
A animação que nasceu primeiro no ritmo
Zim, Boum, Boum é o tipo de peça que lembra, sem cerimônia, que a animação nasceu primeiro como ritmo — antes de ser narrativa, personagem “psicológico” ou espetáculo de longa duração. Feita por Émile Reynaud para o praxinoscópio, ela existe para um gesto curto e insistente: um pequeno músico (um menino de roupa verde) tocando tambor e pratos, um número que se repete em loop com a precisão de uma partitura visual.

A força do praxinoscópio está na forma como ele “limpa” a experiência dos brinquedos ópticos anteriores: ao substituir as fendas do zootrópio por um círculo interno de espelhos, ele estabiliza a imagem e torna o movimento menos trêmulo, mais contínuo ao olho. E é exatamente esse tipo de fluidez que Zim, Boum, Boum explora: não há espaço para nuance longa; há espaço para clareza. O corpo se organiza em poses legíveis, as mãos sugerem o ataque rítmico, e a repetição vira sentido em vez de limitação — porque o tema já é repetição (bateria, batida, refrão).
O título é quase onomatopeia — e isso importa. Ele não descreve um enredo; descreve um som imaginário. A peça funciona como um truque de sinestesia: você “ouve” com os olhos. O que se vê não é música, mas um conjunto de sinais suficientes para que o cérebro complete a música. Esse mecanismo — sugerir mais do que mostrar — é uma das engrenagens centrais da animação e aparece aqui em estado embrionário, mas plenamente eficaz.
Do ponto de vista histórico, Zim, Boum, Boum tem um lugar bem definido: ele é listado como a décima animação da Série 1 das tiras de praxinoscópio (1877–1879) produzidas por Reynaud. Dito de outro modo: ela não é só “uma curiosidade antiga”; ela fecha uma série como quem fecha um set musical — com energia, com impacto imediato, com gesto que se entende de relance.
Assistir hoje é aceitar uma métrica diferente: a peça não oferece evolução dramática, porque sua inteligência está no loop; ela não pede que você acompanhe, pede que você perceba. E, nesse recorte, ela continua moderna: é um micro-GIF do século XIX, uma cápsula de movimento que existe para ser repetida, não para terminar. Se a beleza de L’Aquarium (O Aquário) está na contemplação, Zim, Boum, Boum está na pulsação. E talvez por isso ela sobreviva tão bem: a batida é uma das formas mais antigas de prender a atenção humana — inclusive quando não há som nenhum.
Avaliação geral
Importância histórica (Reynaud / praxinoscópio)
Inovação técnica (fluidez do dispositivo)
Ritmo e legibilidade do movimento
Charme visual / design do personagem
Experiência hoje (acesso, duração, qualidade das cópias)
Nota geral
Zim, Boum, Boum (1878), de Émile Reynaud, é uma animação para praxinoscópio construída como ritmo visual: um pequeno músico (um menino de verde) toca tambor e pratos em loop. A peça não busca narrativa; busca clareza e pulsação. O praxinoscópio, com espelhos internos, estabiliza a imagem e dá fluidez ao movimento, permitindo que o espectador “ouça” a batida com os olhos. Como décimo título da Série 1 das tiras de Reynaud, funciona como micro-espetáculo: curto, repetitivo por natureza e, justamente por isso, memorável.



