Crítica| A Rosácea Mágica

A primeira animação de abstrata.

Há uma beleza particular nas obras que não tentam “representar” o mundo — elas tentam organizar a percepção. La Rosace Magique (A Rosácea Mágica), atribuída a Émile Reynaud e concebida como tira para praxinoscópio, é exatamente isso: um pequeno espetáculo ótico onde o assunto não é um personagem, mas a própria sensação de movimento, cor e simetria. Em vez de contar uma história, ela nos coloca diante de um princípio: o olho pode ser conduzido por padrões, pulsos e metamorfoses, como se o cinema nascesse também de uma lógica próxima ao caleidoscópio.

O praxinoscópio, patenteado por Reynaud em 1877, aperfeiçoa os brinquedos ópticos anteriores ao substituir as fendas do zootrópio por um arranjo interno de espelhos, estabilizando a imagem e tornando a animação mais “limpa” e luminosa. La Rosace Magique se aproveita dessa melhoria de forma quase ideal: o que ela oferece é uma roseta que se desloca e se reconfigura em ciclo, um padrão que parece se abrir e se recolher, criando uma hipnose visual que não depende de enredo — depende de ritmo.

Há um ponto decisivo aqui: entre as tiras listadas na filmografia de Reynaud, La Rosace Magique ela é uma exceção “não narrativa”, porque privilegia efeitos geométricos e cromáticos em vez de ações humanas ou animais. Isso a torna, em retrospecto, surpreendentemente moderna: é uma animação que antecipa a ideia de “abstração animada” muito antes de a abstração se consolidar como movimento estético no cinema do século XX. Em outras palavras, ela não é só um marco por ser antiga — é um marco por ser conceitualmente ousada: propõe a animação como arte de formas em transformação, não apenas como caricatura do mundo real.

A experiência de assistir hoje (quando se encontra uma cópia decente) é curiosamente contemporânea. A roseta não “anda” para algum lugar: ela trabalha na lógica do loop, do retorno, da variação dentro da repetição — exatamente o que faz um GIF hipnótico. E é aí que a peça ganha densidade crítica: o “conteúdo” pode parecer mínimo, mas a lição é grande. Ela demonstra que, antes do cinema ser narrativa, ele já podia ser puro encantamento ótico.

Um detalhe de catalogação vale registro: você vai encontrar o título com datas variando entre 1877 e 1878 dependendo da base (o que é comum com tiras de praxinoscópio, por causa de patentes, comercialização e reedições). Isso não altera o essencial: estamos falando de um período limítrofe em que a animação ainda é um “aparelho + tira”, mais do que um “filme” como o século seguinte entenderia. E La Rosace Magique permanece como uma das peças mais elegantes desse limiar, porque transforma técnica em poesia visual.

Avaliação geral

Importância histórica (Reynaud / pré-cinema)
Inovação técnica (praxinoscópio / estabilidade da imagem)
Beleza e impacto visual (cor, simetria, efeito “caleidoscópico”)
Originalidade estética (abstração animada rara no conjunto)
Experiência hoje (acesso, preservação, qualidade das cópias)

Nota geral

La Rosace Magique (1877) é uma tira animada de Émile Reynaud para o praxinoscópio, construída como música visual: uma roseta geométrica que se transforma em loop, explorando cor, simetria e ritmo. Em vez de narrativa, oferece hipnose ótica — um caso raro, entre as tiras de Reynaud, de animação essencialmente abstrata. A estabilidade do praxinoscópio (com espelhos internos) valoriza a fluidez do padrão, e a peça antecipa a ideia de “abstração animada” muito antes do cinema moderno.

User Rating: Be the first one !
Sair da versão mobile
Pular para a barra de ferramentas